16/10/2008
Cais…
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Um cais. O céu de Noite Estrelada numa noite de novembro. Anseio de não viver a deriva de ressacas e marés, de céus nublados. Desventura de abdicar de mais algumas coisas por sonhos. Por dançar em telhados cada vez mais altos, sem fios, sem cordas, sem algemas... Viver nas entrelinhas de uma partitura.. de uma melodia que assim como a vida tem seus autos e baixos, seus sons mais agudos e graves. Anseio de dançar, de sair da estagnação na qual chegou a minha vida. De sair da teoria, da filosofia, do manual de conduta e de ações que me abstenho a tomar. Um barco... Um barco atracado numa mesma praia numa mesma estação. Desejando sentir a brisa oceânica.. que sopra bem longe do continente.. Porém (um barco) ancorado a um ritmo de uma mesma composição, num mesmo refrão repetido e repetindo... Sentido saudades de outros tempos e notas, do navegante que um dia fora e que se perdeu dentro de si. Sentido por ter percorrido apenas dois terços do mapa do tesouro que nomeou como rota. Por não ter dançado até a última nota. Por afogar numa tempestade em um mar em calmaria. E que mesmo tendo em mãos um punhado de grãos de areia, olha pro céu e sabe que ainda há de alcançar uma estrela..

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O mundo no fundo do meu pátio
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É um canto onde a civilização não passa. Ali floresce o funcho, o cidró, e viceja o inço. Ali as flores do mato se assanham sob o vento, junto às laranjeiras e figueiras, tudo debaixo do frondoso abacateiro da vizinha que teima em estender seus braços pro lado de meu pátio.
Ali, naquele canto mora alguém. Alguém que me puxa pelo braço e me detém, quando passo distraída. E me prende os olhos, como que hipnotizando, e abre alguma coisa dentro de mim, sem pedir licença, e vai entrando, ou coisa assim. Não consigo batizar-lhe nunca, a não ser por “aquela coisa”. E talvez resida aí o fascínio do mistério.
Sei que é o mesmo alguém que morava naquela sanga, no fundo da minha casa pobre, na vila, quando eu era criança. Lembro do zumbido das moscas e o peso do calor que imobilizava. Eu não pensava em nada, nem fazia nada, a não ser abrir a porta e deixar entrar aquele ser invisível que me absorvia inteira.
Sei também, descobri a pouco, que ele tem muitas moradas, das mais variadas e insólitas. Me surpreendeu um dia num bule de cadê. Noutro dia eu o surpreendi filtrando pelo sol, na janela do meu quarto, fazendo retalhos na minha cama. Mas um dia ainda, na estrada, peguei-o num menino com sua presença. È unificação, fusão universal, é a paz. É a beleza, imprevisível, em qualquer tempo e lugar. Ele é dono de todas as esferas. As peças mudam de lugar, no jogo da vida, e num “clic” o real, que é o mundo, que me toca quando quer.
Aquele canto ali no pátio, de alguma maneira fantástica, está ali desde sempre, e ali permanecerá, mesmo que a roda siga girando e o tempo teça ali seus emaranhados. Toda porta que em mim se abre ao fascínio das coisas, mesmo que só eu as veja, sei que foi o sopro de quem habita no mundo do fundo do meu pátio.
Irene Genecco de Axambuja
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Basta olhar no fundo dos meus olhos
Pra ver que já não sou como era antes
Tudo que eu preciso é de uma chance
De alguns instantes
Sinceramente ainda acredito
Em um destino forte e implacável
Em tudo que nós temos pra viver
E muito mais do que sonhamos …